"O amor/ é a um só tempo/ doce e amargo" - essa imagem, tirada dos fragmentos de Safo, vibra em todas as páginas de Controlar a boca, novo livro de Lilian Sais. Depois de dedicar uma Tetralogia da Perda ao luto pelo pai, a poeta entra nos cadernos de receita deixados por sua mãe para escavar - em meio à "letra de criança", a ingredientes e modos de preparo - os sabores e dissabores que vão bem além de sua história familiar.Em versos que mesclam afeto, memória e acidez crítica, Sais aproxima o mundo da mãe, que foi tirada da escola porque já sabia escrever o suficiente para ter o próprio caderno de receitas, e o da filha poeta, com "bacharelado mestrado e doutorado/ em grego antigo". No trânsito entre experiências que parecem tão distantes, mas que compõem uma mesma trama da vida, ela nos conduz por caminhos que passam entre orações a Santo Expedito, dicas de saúde e conselhos para as moças, marcas que o fogão deixou no corpo, fotos de família etc., mas que levam, sobretudo, a lindos poemas.Controlar a boca é um livro sobre encontros (o que há de mais propício do que a comida para lembrar encontros e tudo de que eles são feitos?), mas também sobre despedidas e o que fica depois delas. Como numa escavação poética, Lilian Sais persegue o fio da morte da mãe e encontra um livro de poemas dentro de um caderno de receitas - e não poderia haver forma melhor de lidar com os choques profundos e silenciosos de um mundo em que o luto se mistura ao cheiro de bolo e as palavras nem sempre foram servidas à mesa: "dia sim dia não/ passa pano/ no piso frio/ e coloca panos quentes/ nas discussões/ da família// gosta de tudo/ brilhando e se orgulha/ de ser/ uma mulher limpa". Projeto financiado com recursos do ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativa, e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Governo Federal.