A cidadania das bonecas de pano é o novo livro de Ricardo Domeneck - vencedor do Prêmio Jabuti e do Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional (2024) -, que integra a Coleção Polyphonia. Na obra, o poeta aprofunda sua investigação sobre o corpo como espaço político e a linguagem como campo de disputa, articulando experiência íntima e crítica social para interrogar quem pode ser reconhecido como sujeito em um mundo atravessado pela desigualdade e pela precarização da vida. Em A cidadania das bonecas de pano, o poeta aprofunda e radicaliza algumas das linhas centrais de sua obra: o corpo como território político, a linguagem como campo de disputa e a vida cotidiana como lugar de colisão entre história, economia, afeto e violência simbólica.O volume reúne 32 poemas, organizados como uma espécie de arquivo poético da experiência contemporânea. Ao longo do livro, o poeta mobiliza registros diversos - da elegia à sátira, da oração profana ao inventário doméstico, do canto amoroso à crítica social - para interrogar as formas de pertencimento, herança e exclusão que moldam os corpos e as subjetividades no mundo atual.O título do livro aponta para uma das operações centrais da obra: a extensão da ideia de "cidadania" a corpos tradicionalmente relegados à condição de objeto, resto ou simulacro. As "bonecas de pano" - feitas de retalhos, costuras, sobras - tornam-se metáfora potente de vidas marcadas pela precariedade, pela transmissão desigual de direitos e pela violência naturalizada das relações econômicas, familiares e religiosas. Nesse gesto, a poesia de Domeneck desloca a noção de sujeito soberano e questiona os pactos morais que sustentam a divisão entre o humano plenamente reconhecido e aquilo que pode ser explorado, sacrificado ou descartado.Do ponto de vista formal, A cidadania das bonecas de pano reafirma o rigor e a inventividade que caracterizam a escrita do autor. O livro trabalha com longos encadeamentos sintáticos, enumerações vertiginosas, alternância de vozes e endereçamentos diretos, além de um uso preciso da ironia e do excesso. A musicalidade do verso convive com uma atenção minuciosa ao léxico do cotidiano - alimentos, roupas, objetos, gestos mínimos - que se transforma em matéria crítica e simbólica. A tradição bíblica, o imaginário cristão, a história colonial, a economia global e as dinâmicas do desejo atravessam os poemas sem hierarquia, compondo um campo de forças em permanentemente tensionadas. O livro