[...] o que torna este livro verdadeiramente original é abordar a "autonomia disjuntiva" da Fundação Rockefeller em relação ao Departamento de Estado norte-americano. Ricardo desvela uma faceta da diplomacia científica: o uso do financiamento como ferramenta de soft power para neutralizar a influência comunista. No entanto, o texto foge do maniqueísmo ao mostrar como a Rockefeller, em nome da excelência técnica, soube ser flexível. O pragmatismo de agentes como Harry Miller Jr. e Robert Watson muitas vezes silenciou diante das inclinações políticas de figuras centrais como Zeferino Vaz e a família Tito de Morais, desde que estes se mostrassem "missionários da ciência" capazes de liderar a modernização desejada.[...]Este livro, portanto, não é apenas uma história das instituições médicas. É um exame sobre como a ciência é gestada no cruzamento entre a necessidade de recursos, o prestígio acadêmico e as tensões da Guerra Fria. Ricardo dos Santos Batista nos oferece uma lente poderosa para compreender que, por trás de cada laboratório financiado, havia um projeto de nação e uma estratégia global de poder. É uma leitura obrigatória para historiadores e todos aqueles interessados em entender os fios invisíveis que teceram a ciência contemporânea nas Américas.-Luiz Otávio FerreiraFundação Oswaldo Cruz/ Universidade do Estado do Rio de JaneiroAqui está a transcrição:A Modernização do Ensino Médico examina o papel da Fundação Rockefeller na transformação da formação médica e da pesquisa científica nas Américas em meados do século XX. Durante a década de 1950, a Fundação financiou instituições importantes como a Escola de Medicina de Cali e, no Brasil, a Escola Paulista, a Universidade Federal da Bahia e a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. Sua estratégia focava na concessão de bolsas de estudo para o exterior, com o objetivo de que os profissionais formados replicassem o modelo americano, baseado na integração da prática clínica hospitalar e da pesquisa laboratorial. Isso fomentou o desenvolvimento de disciplinas fundamentais como a fisiologia, a bioquímica e a biologia experimental, bem como a adoção de cargos docentes em tempo integral, visando fortalecer a pesquisa científica.Essas reformas ocorreram em um contexto marcado pela Guerra Fria, no qual a modernização do ensino médico e científico também serviu como instrumento geopolítico para conter a expansão do comunismo. Contudo, cientistas locais desempenharam um