Nos arquivos do Império, a palavra "emancipado" podia nomear outra forma de sujeição. É nessa contradição que África-Brasil encontra seu eixo. Os 102 documentos aqui reunidos revelam como Luiz Gama aprendeu, dentro da polícia e da administração imperial, a reconhecer a liberdade que o tráfico e seus agentes ocultavam: ouvindo memórias de africanos, registrando marcasnos corpos, seguindo rotas clandestinas e produzindo provas contra senhores e autoridades. No centro do volume está o extraordinário Livro de matrícula dos africanos emancipados, redigido em grande parte por Gama: 124 pessoas reaparecem por seus nomes, nações, famílias, ofícios, cicatrizes e destinos; a edição lhes devolve espessura numa galeria de xilogravuras concebida por Artur Soares a partir dessas descrições. Na segunda metade, esse saber torna-se doutrina de combate: Gama trata as proibições do tráfico como direito vigente, capaz de libertar os ilegalmente escravizados e toda a sua descendência. Entre vitórias, derrotas e causas sabotadas, o livro compõe um contra-arquivo do Império e demonstra que o pensamento jurídico de Gama nasceu da aliança entre escuta, investigação e combate.