A Grande Deusa. Ela não vem sozinha: chega vestida de muitas faces compondo a roda. Deméter caminha entre os campos ressecados, clamando por cuidado e nutrição. Perséfone desce aos porões da psique, acendendo luzes na escuridão. Afrodite sopra beleza sobre o corpo silenciado, devolvendo-lhe desejo e encanto. Hera se revela como a guardiã dos juramentos, tecendo com firmeza os fios invisíveis do compromisso eterno. Héstia chega como um fogo suave e profundo, um fulgor sereno que habita o centro silencioso, mantendo acesa a chama do equilíbrio e da paz interior. Artemis corre entre as árvores, selvagem e livre, lembrando que o feminino não se curva. Atena ergue o pensamento como lança, sem ferir, mas traçando caminhos de sabedoria.O convite a este livro é para acender inquietações - como quem acende uma chama no escuro - e provocar caminhos de pensamento onde antes talvez houvesse apenas silêncio ou repetição. Cada texto aqui reunido nasce como gesto de insubmissão, como tentativa de rasurar moldes, de desfiar discursos consolidados, de abrir brechas no tecido das certezas. Não se trata de falar da mulher como figura estática, aprisionada em papéis prontos, mas de escutá-la como território em movimento, como campo fértil de luta, criação e reinvenção. Ao pensar o lugar da mulher na sociedade, não buscamos respostas definitivas, mas o risco da pergunta viva - aquela que perturba, desloca e, justamente por isso, transforma. Este livro é, assim, um gesto coletivo de escuta e expressão: em que se escreve em múltiplas vozes, sempre atravessado pela urgência de imaginar outros mundos possíveis.