Com ouvidos atentos para os diferentes ritmos da vida e uma grande habilidade para recortar cenas preciosas do cotidiano, Nathallia Protazio entrega a nós, pessoas leitoras, um belíssimo livro de contos. As personagens de As mãos de quem não espera transitam entre o interior e a cidade, entre a esperança do sonho e os contornos um tanto ásperos da realidade. Aqui encontramos pessoas em trânsito: o do rapaz do interior que sonha com a cidade, o do rapaz da cidade que se encontra no interior, mães trabalhadoras e desejantes, mulheres ausentes, amigas que buscam se compreender, um homem que se descobre abandonado numa casa que fede, o melhor escritório da cidade com as relações mais degradantes possíveis, ou o trânsito das pequenas conversas que terminam em epifanias. A prosa de Nathallia é sensível e pungente, capaz de nos revelar a existência humana em acontecimentos insólitos e ao mesmo tempo terrivelmente reais. São fragmentos de dias comuns, de vinganças longínquas, de paixões imensas e por vezes frustradas onde o mundo perde o relevo. Com muita astúcia, a crítica social emerge naturalmente na trama das personagens, em suas complexidades, por meio de seus anseios, sonhos, alívios e humilhações. Nestes contos talvez possamos descobrir que o tesouro resida mesmo nas mãos de quem nada espera. Como é a vida. As mãos de quem não espera é um livro que carrega algo do sertão, algo do interior, algo sobre olhar o mundo em deslocamento, sejam geográficos ou interiores. Um livro complexo, sensível, bem-humorado e luminoso.