O conceito de cronotopo, formulado por Mikhail Bakhtin, é um dos pilares da teoria do romance moderno - e, paradoxalmente, um dos mais frequentemente simplificados. Reduzido muitas vezes a sinônimo elegante de "cenário" ou a mera ferramenta classificatória, ele perde justamente aquilo que o torna decisivo: sua capacidade de revelar como o tempo histórico e o espaço social se condensam na forma literária e moldam, ao mesmo tempo, o gênero, o enredo, a imagem do homem e a visão de mundo. Este livro nasce da recusa dessa redução. Bakhtin e o cronotopo propõe uma leitura rigorosa e sistemática dos dois textos fundamentais do pensador russo - As formas do tempo e do cronotopo e O romance de educação - demonstrando que o cronotopo não é um conceito auxiliar, mas a verdadeira arquitetônica do sentido na teoria bakhtiniana.Ao reconstruir o percurso histórico do romance, da Antiguidade ao Realismo, o autor mostra como cada forma narrativa institui uma maneira específica de viver o tempo, habitar o espaço e conceber o humano: do herói imutável do romance grego ao homem em devir do Bildungsroman; da praça pública antiga ao mundo material rabelaisiano; da estaticidade mítica à plena historicidade que culmina na visão de Johann Wolfgang von Goethe, capaz de "ler o tempo no espaço".Mais do que uma história dos gêneros, esta obra oferece uma teoria integrada do cronotopo, articulando suas funções genológica, antropológica, narratológica e axiológica. Ao final, o conceito se revela não apenas como ferramenta de análise literária, mas como instrumento crítico para pensar as formas culturais contemporâneas - da narrativa digital às novas experiências de tempo e espaço no mundo atual.Bakhtin e o cronotopo é um convite à leitura do romance - e da própria modernidade - a partir do lugar onde o tempo se torna visível e o espaço ganha densidade histórica.