Entre outras coisas, este livro discute os efeitos de acomodação e de estranhamento na experiência do cinema, e sua inclinação para a segunda alternativa já está indicada na escolha dos objetos. Quem viu filmes de David Cronenberg e de Fernando Meirelles não deixa de estranhar: o que têm a ver Naked Lunch e Cidade de Deus, à primeira vista tão díspares? José Carlos Felix mostra que os contrastes evidentes entre as adaptações dos romances de William S. Burroughs e de Paulo Lins são menos relevantes para o ato crítico do que aquilo que têm em comum. A questão central são "possibilidades de expressões cinematográficas genuinamente capazes de romper, subverter e contrariar a hegemonia do idioma tecnicamente controlado do cinema mainstream". Com a comparação entre os dois filmes, confirma-se a eficácia da indústria cultural: em ambos, de diferentes maneiras, a técnica artística acaba por converter-se em gerador de dispositivos formais com função meramente estilística, reduzindo-se assim a chance de oferecer ao espectador uma experiência estética efetivamente anticonvencional, que pusesse em xeque os padrões de representação aos quais está habituado, que - por consequência, supõe-se - pusesse em xeque determinada visão do mundo muito bem administrada nas mercadorias culturais.