Aqueles que passam apressados pelas grandes cidades brasileiras veem de longe aglomerados de pessoas em situação de rua emcalçadas, terrenos, praças, esquinas. Talvez não imaginem que cada grupamento desses só é possível por relações de afeto e ajuda, pela contribuição com o espaço da maloca, pelo compartilhar de alimentos, pela proteção contra as diversas hostilidades.Descrevendo tais vínculos, Leandro Carneiro persegue neste livro o que nomeia de "fazer família" nas ruas a partir do seu longo conhecimento sobre o tema, construído tanto pelo trabalho em um serviço de abordagem social quanto durante o mestrado em antropologia na USP. Nessas páginas, o leitor verá que esta noção de família não é criada por uma mera abstração semântica, mas principalmente pela prática concreta do viver junto. Como escreveu um grande nome da nossa disciplina, Marshall Sahlins, parentes são aqueles que participam a vida e choram a morte uns dos outros - uma perspectiva que, cotejada com as experiências aqui narradas, contribui enormemente para complexificar porque, a despeito de tanto estigma e violência, muitas pessoas escolhem permanecer nas ruas, com as suas famílias.- Taniele RuiDepartamento de AntropologiaPPGAS-IFCH/Unicamp*-*-*-*-*-*Poucas vezes tivemos acesso a um retrato em grande angular tão íntimo e tão próximo, e ao mesmo tempo tão amplamente contextualizado,da vida dos que habitam ou erram pelas ruas de São Paulo. Neste livro, Leandro Carneiro nos conduz por uma cidade que muitos tentam não ver, até pelo profundo fascínio que ela desperta: uma São Paulo feita de malocas, calçadas, vielas, ocupações improvisadas, feridas do corpo e da alma, que a vida insiste, um dia depois do outro dia, em tentar cicatrizar. Ao longo das páginas, acompanhamos o autor caminhando de maloca em maloca, escutando histórias, compartilhando gestos, observando rotinas e rituais. Diante de nós, revela-se a força de uma cidade que se constrói e se reinventa em meio à extrema desigualdade. O que conhecemos é, ao mesmo tempo, criação teimosa de laços de família, amizade e comunidade, e também elaboração cotidiana de uma política subalterna, mas nada irrelevante. Essa política que nasce no improviso das alianças diárias entre ruas, clínicas de reabilitação, unidades de internação, delegacias de polícia e presídios, se manifesta nas ideologias de cuidado entre iguais que pedem paz entre si, mas guerra ao sistema. Recusa-se absolutamente a invisibilidade e isso desafia os modelos tradi
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