O livro devota-se a discutir as complexas relações entre ciência e política, saber e poder, dispensando especial atenção ao periodode incerteza pessoal e coletiva vivenciado durante a pandemia. O mundo pôde contar com os resultados da proficiente pesquisaproduzida pelas ciências naturais na elaboração de vacinas e de técnicas de enfrentamento das ameças representadas peloSARS-CoV-2. No auge da pandemia, e mesmo depois, deixaram de ser identificadas as causas das guinadas que levaram o mundoacadêmico, particularmente os departamentos de humanidades das universidades, a deixar para trás a concepção de ciênciacomo construção social para passar a apresentá-la como detentora de valor cognitivo intrinseco e única arma capaz defazer frente aos desafios surgidos naquele momento. Ficou claro que o enfrentamento dos efeitos psicossociais da pandemia seressentia da falta das contribuições das ciências sociais ao entendimento das atitudes que o homem comum assumia dianteda disseminação do vírus. Tornou-se importante compreender que fatores psicossociais foram responsáveis pela mudança que deixou de ver a ciência como mera construção social para passar a defendê-la, durante a pandemia, como baluarte da racionalidade e da democracia.Subitamente, a defesa política da ciência se associou a uma concepção que a reputava repositório de verdades e certezas.