A leitura de Dois Livros e Três Gerações: Estudos Sócio-Históricos e Linguísticos da Coleção O Sertão por Escrito (1755-1838) trouxe à memória um comentário informal do Professor Afranio Barbosa sobre o que é fazer pesquisa em Linguística Histórica.Para o desbravador dos estudos sobre a história do português colonial, somos "os escafandristas" da canção Futuros amantes de Chico Buarque, que "virão explorar sua casa, seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos" em "alguma cidade submersa". Somosos "sábios" que "em vão tentarão decifrar o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de estranha civilização".Ao fazerem suas anotações contábeis no Livro de Razão, entre 1795 e 1838, Antônio e InocêncioPinheiro Pinto, da fazenda de criação do Brejo do Campo Seco, não podiam vislumbrar que seus apontamentos sobre negócios, escravizados, animais, entre outros, cairiam em mãos ávidas por decifrar aspectos sociais e linguísticos do sertão brasileiro colonial. Duzentos anos depois, estamos diante de uma obra primorosa, que reúne estudos que transitam, com bastante profundidade, na sócio-história e na língua dos setecentos, período ainda pouco estudado pelos pesquisadores da área.