O presente livro reitera a eloquente demanda do líder e intelectual surdo Ferdinand Berthier (1803-1886) em um dos banquetes promovidos pelos surdos na França em 1842. Berthier declarou que nada seria pior para os surdos do que não encontrarem outra saída senão fecharem-se uns com os outros, formando um mundo simbólico e cultural à parte, o que poria a nu o egoísmo e a exclusão dos surdos pelos especialistas ouvintes. Essa exclusão seria movida pelo desejo de profissionais ouvintes de torná-los socialmente invisíveis na busca laboriosa em reabilitá-los para se fazerem passar por falantes e escritores de uma única escrita e cultura: a da suposta maioria letrada. Por isso, ainda se nota, entre os surdos, a brasa silenciosa de poderem constituir um espaço onde possam ser apenas surdos nas diferenças que há entre eles, em uma rede, ainda que virtual, de pertencimento e processos de identificação.BERTHIER, Ferdinand. Banquets des sourds-muets por fêter les anniversaires de la naissance de l´abbé de L´Épée. Société centrale des sourds-muets de Paris, p. 94-96, 1842.