Religião e política formam um casamento que atravessa milênios. Historicamente, uma se vale da outra em busca de legitimidade, coesão e poder. Do ponto de vista pragmático, a fórmula parece eficaz: produz adesão, mobiliza paixões e, não raramente, obscurece consciências e bloqueia o discernimento crítico. Contudo, como herdeiros da modernidade e dos processos de secularização, supunha-se que tivéssemos aprendido a reconhecer as ambiguidades e armadilhas desse tipo de simbiose. O Brasil contemporâneo, porém, revela que ainda resta um longo caminho de amadurecimento institucional e teológico a ser percorrido. Especialmente no interior do campo evangélico, observa-se uma espiritualidade fragilizada por alianças interesseiras e por uma captura ideológica da fé. O resultado tem sido a perda de sobriedade no debate público e a erosão de vínculos comunitários e familiares, dilacerados em nome de identidades político-religiosas absolutizadas. Nesse contexto, o livro de Gustavo Sanches Duarte constitui uma contribuição relevante ao debate teológico e sociorreligioso. Com rigor analítico e sensibilidade pastoral, o autor oferece ferramentas conceituais para compreender as raízes históricas e os mecanismos contemporâneos da polarização religiosa no Brasil, convocando leitores e leitoras ao exercício da lucidez crítica e do discernimento evangélico.Dr. André AnéasLaboratório de Teologia, Espiritualidade e Mística (LabTEM)