O que significa dizer "eu mereço" no mundo de hoje? Antes, merecer implicava ter feito algo, um esforço, culpa e recompensa - uma lógica moral que organizava a vida individual e coletiva. Agora, parece que basta existir: o merecimento virou ponto de partida, não consequência. Entre anúncios publicitários e discursos de autoempoderamento, a promessa é clara: você merece tudo. Mas, ao mesmo tempo, proliferam ansiedade, frustração, ódio e exaustão.Neste livro, Paula Sibilia, antropóloga argentina radicada no Rio de Janeiro, investiga essa contradição central da contemporaneidade: como uma cultura que incentiva o prazer, a liberdade e a autorrealização convive com níveis crescentes de sofrimento psíquico e desagregação social. Para isso, analisa o colapso do "solo moral" da modernidade - aquele baseado na culpa, na repressão e no contrato social - e a emergência de um novo regime marcado pelo cinismo, pela exposição e pela radicalização. Da ética burguesa à cultura digital, das promessas iluministas à lógica dos algoritmos, o texto percorre as transformações que corroeram os valores que sustentavam a vida moderna.Ao mobilizar psicanálise, crítica cultural e teoria social, Sibilia revela como essa lógica se inscreve em um contexto mais amplo de transformações - da ascensão do neoliberalismo à centralidade das tecnologias digitais -, no qual o antigo regime de hipocrisia moral cede lugar a formas cada vez mais explícitas de cinismo: não se trata mais de fingir respeitar regras, mas de ignorá-las abertamente em nome de interesses próprios.