Romance de formação às avessas, Fora o pasto, tudo é granja é uma história múltipla, contada sob diferentes pontos de vista.Nos anos 1930, em um galpão que cheira a madeira molhada, sentado num banquinho de tirar leite, um pai quer que os quatro filhos pequenos matem, um de cada vez, quatro galinhas que se debatem em sacos de juta trazidos por um peão. Um dos meninos fracassa na tarefa, paralisado de medo e nojo, e ali aprende — que “só tem que matar galinha quem não é dono de galinheiro”.Décadas mais tarde, o menino é conhecido como doutor Santos. O intervalo entre o ritual ambíguo de iniciação e o sucesso econômico e político do personagem, cuja trajetória acompanha o crescimento de Brasília desde a sua construção, é o tempo de uma mudança íntima radical. Em paralelo, o cenário da nova capital concentra alguns dos paradoxos brasileiros: modernidade e atraso, lei para uns e barbárie para o resto.Expoente da nova ficção nacional, Dan volta ao universo de seu primeiro romance para descrever esse mundo em que “nunca vence quem só joga” e a consciência é um “lugar dentro da gente que talvez nem exista”. A riqueza de detalhes de sua prosa faz o panorama social colorir e ser colorido pela psicologia de quem experimenta seus efeitos, em tons que variam entre o documental e o íntimo, a secura das frases curtas e o aluvião dos fluxos de consciência, onde o horror nasce dos desejos, e isso mostra o poder — igualmente paradoxal — das fragilidades humanas: “Passa o tempo, rei de nada, e vem mais sede”.