Publicado em 1912, este pequeno romance, ou crônica longa, é uma sátira impiedosa à elite paulistana doperíodo. Contundente e corrosivo, Gente rica: cenas da vida paulistana é um dos mais expressivos exemplosda literatura belle époque de São Paulo.Dividido em cenas, o romance é protagonizado pelos amigos Leivas Gomes e Juvenal Leme, figurascaricaturais que representam o estilo de vida dos poderosos. Empreendedor típico, Leivas enriqueceu graçasà inteligência e ao oportunismo. Já Juvenal é paulista da gema, vive confortavelmente de rendas e descendede famílias de bandeirantes e militares. Alter ego do autor e hábil conversador, não perde oportunidade dedisparar tiradas irônicas e extravagantes.O cenário é uma São Paulo que rapidamente se moderniza, um Brasil em transformação, com o início dodeclínio da República Velha. Nossos heróis circulam pelo centro da cidade, mais especificamente pelochamado Triângulo, ao lado de jovens janotas, fazendeiros de café, advogados, médicos, políticos eestudantes de direito: vão ao cinema, frequentam a Casa Garraux, as rotisseries Sportsman e Castelões, oTeatro Santana. Tomam café e confabulam no Guarany, avistam o Theatro Municipal recém-inaugurado e oviaduto Santa Ifigênia em construção.Retrato de época vivaz e arrasador, escrito em linguagem ágil, Gente rica: cenas da vida paulistana é umadas muitas manifestações do pré-modernismo que, de acordo com a crítica literária Walnice NogueiraGalvão, ficaram um tanto ofuscadas pelo fulgor da Semana de Arte Moderna de 1922. São, porém, obrasestimulantes com o poder de divertir e fazer pensar o leitor contemporâneo.