Negros protagonistas na literatura infantojuvenil brasileira: fases, faces e a ternura da cor, de Maria Anória de Jesus Oliveira, mostra-se, por um lado, como uma excelente oportunidade de reflexão para o(a) leitor(a) quanto à relevância dos livros literários infantis na consolidação do imaginário nacional. Por outro lado, a obra convida esse(a) mesmo(a) leitor(a) à revisão de seus referentes no processamento da leitura literária. Isso porque a autora, ao mesmo tempo em que valora e reafirma o potencial da literatura como representação das relações sociais, alerta para o fato de que essa potencialidade ficcional veicula e, às vezes, faz com que se cristalizem valores e visões estereotipadas de/em determinadas sociedades, cujos processos de hierarquização e subalternização de sujeitos engessam, historicamente, discursos equivocados que inferiorizam e estigmatizam pessoas, em especial aquelas de pertencimento racial não branco.No caso específico da população negra brasileira, a chamada Literatura Infantojuvenil vem colaborando sensivelmente para a manutenção do mito da democracia racial, pela forma como representa seus sujeitos ficcionais negros. Sob a imposição de um imaginário racista, que naturaliza expressões pejorativas de nomeação e/ou de referenciação da pessoa negra, discursos e sentidos dissimulam-se ao longo das narrativas, "portanto, muitas vezes disfarçados qual o ''''mito'''' sob as faces dos personagens", como bem o observa Maria Anória Oliveira, com seu olhar crítico sempre atento às nuances do "racismo à brasileira".