Aderbal Semei, professor ludovicense de História, retorna a seu apartamento em São Paulo, cujos objetos em desarranjo parecem vaticinar-lhe pragas quase míticas. Aka Laurência, a mulher que o amou, talvez o tenha abandonado e levado consigo o discernimento que ao menos permitiria a Semei acautelar-se quanto às linhagens de demônios que insistentemente cerram seus caminhos.Partindo, pois, desse cenário assombrado por sombras polvorosas, gatos eriçados e famélicos e no qual as marquises são comoconvites ao salto derradeiro, Karleno Bocarro ergue um painel sombrio da turbação e queda de seus personagens, no qual cada gesto e verbo carregam o peso de uma maldição arraigada.Num mundo de almas que oscilam entre o transe e a paralisia, o protagonista deste romance, assim como seu homônimo bíblico que amaldiçoou o rei ungido, atravessa a cidade como um homem de sangue, ainda que, insciente dos confins de suas próprias culpas, continuamente semeie sal nas planícies de seu próprio espírito.O Advento é a história de um milagre inverso: um êxodo interior que conduz não à libertação, mas a um abismo irresgatável da consciência.