Publicado pela primeira vez em 1981, O arcano da reprodução é um clássico do feminismo italiano que ganha sua primeira tradução para o português. A partir das grandes revoltas sociais que contestaram as divisões sexuais e raciais do trabalho em todo o mundo na década de 1970, a obra de Leopoldina Fortunati expande e transforma o modo como analisamos o processo de reprodução - parte do ciclo capitalista que diz respeito à produção de indivíduos como mercadoria força de trabalho. Partindo de categorias marxistas, Fortunati vai além, explorando inclusive a visão parcial de Karl Marx em relação à análise de reprodução, uma vez que o autor, que reconhecia o papel do trabalho doméstico no processo geral de produção como momento da reprodução da força de trabalho, não atribuía a essas atividades - centrais para a manutenção da vida tanto no âmbito material, da subsistência, quanto imaterial, no que diz respeito aos afetos e à sexualidade -a capacidade de produzir valor. Fortunati procura demonstrar, não contra Marx, mas para além dele, como o trabalho de reprodução realizado pelas "operárias da casa" e pelas "operárias do sexo" integra o processo geral de reprodução do capital. Original, a obra nos apresenta valiosas ferramentas de análise do estado contemporâneo do desenvolvimento capitalista e das lutas das mulheres hoje. No momento em que o trabalho digital borra ainda mais as fronteiras entre as jornadas de trabalho doméstico e extradoméstico, o texto continua sendo precursor e essencial. Trecho"No terreno da reprodução, de fato, há duas classes em confronto: a dos capitalistas e aquela formada por duas frações de classe que são, de um lado, as operárias da casa e, de outro, as operárias do sexo. É justamente dessa complexa condição da trabalhadora livre como capacidade de reprodução que deriva, como mencionamos no início, a contradição particular da condição feminina na sociedade capitalista. Para a ideologia burguesa, a mulher não trabalha, no sentido estrito, mas desempenha uma missão, a de esposa e mãe (mais ou menos emancipada); para o trabalhador livre, a mulher é dona de casa ou prostituta, ou seja, presta-lhe um mero serviço pessoal (mais ou menos por amor); para o capital, ela deve apresentar-se como uma força natural do trabalho social para ser, em vez disso, operária da casa ou do sexo, não diretamente assalariada. Isso explica por que a mulher, presa a esse torno, inserida numa complexa relação de produção que o operário não reconh