O enigma plural do gênero, de Ivy Semiguem, é frutode uma longa reflexão teórica, rigorosa e primorosa, ancorada numa experiênciaclínica singular, conjugando a escuta analítica com a observação dos fenômenos culturais, cujo resultado representa uma contribuição inestimável para adiscussão do gênero do ponto de vista psicanalítico. Isso, por si só, já seriamotivo mais do que suficiente para situar esse trabalho como uma leitura indispensável para quem lida com essa questão nos diversos níveis doconhecimento e da prática profissional. Mas, graças ao espírito particularmenteaguçado e indagativo da autora, ele acaba transcendendo os limites dadisciplina à qual está diretamente ligado. É justamente esse ímpeto que a levaa se perguntar em que medida os novos discursos sobre o gênero, baseados no paradigmada pluralidade e não da binaridade, já representam um organizador simbólicocapaz de competir com os organizadores tradicionais, ancorados, em últimaanálise, na contingência anatômica.