Acompanhando de perto os lançamentos na França, chega ao Brasil pela Zahar o volume 12 do consagrado Seminário, que compreende as lições proferidas por Lacan entre 1964-1965. Trago-lhes uma anedota que me havia sido confiada por Lacan. Ele relatava a seu amigo Roman Jakobson o seu embaraço para nomear seu próximo Seminário. "Quando isso me acontece", respondeu o eminente linguista, "eu coloco 'Problemas'".Esse embaraço eu relaciono à virada decisiva que marca este Seminário. Os primeiros estavam ligados cada um a uma obra de Freud, da qual propunham um comentário, certamente evasivo e abrangente. O Seminário 11, aquele dos Quatro conceitos fundamentais, teve o valor de síntese final dessa primeira época. A segunda começa com os Problemas cruciais. A partir de então, os Seminários incidirão, sem mediação, sobre as contribuições originais de Lacan.Ainda que disperso, tal como indica o seu título, o presente Seminário não deixa de ter, segundo Lacan, um centro: "o ser do sujeito". Mas cuidado, trata-se do sujeito lacaniano, o $ , ou seja, fendido, que não tem nada a ver com a unidade de um ego. Será que isso é um conceito? É antes uma escrita, com múltiplos sentidos. Ela não se deixa encerrar em uma definição - só nos aproximamos dela por uma série de fórmulas e de figuras.Dentre as fórmulas se destaca "o significante representa o sujeito para outro significante", transformação da definição do signo como representante de algo para alguém. Figuras topológicas - das quais a primeira é a famosa banda de Moebius - estão aqui e ilustram diferentes estados da estrutura subjetiva. Problemas cruciais para a psicanálise constitui um recomeço do ensino de Lacan. Vários desenvolvimentos futuros têm aqui seu ponto de partida.Jacques-Alain Miller