Porque é preciso ser tão outro - eis uma das premissas deste livro, originalmente uma tese de doutoramento defendida na UnB por Ronald Ferreira dos Santos Gomes Tavares, com orientação de André Cabral Honor. Pesquisa de fôlego. Pesquisa nos arquivos, com as mais variadas fontes históricas; pesquisa no âmbito teórico e metodológico, trazendo à luz a coesão textual capaz de captar o outro. Captar e não capturar, como ocorre quando fontes e fatos são naturalizados ou exibidos apenas como ilustração de alguma ideia preestabelecida. Aqui, o sertão está longe de ser estereotipado, não é inventário, nem repositório que acumula e costura anotações sobre pesquisas já realizadas. Examina-se, neste livro, menos a cultura local e mais o local da cultura, como definiu Homi Bhabha. Sem ser tão outro não há história de fato. E, de fato, tem-se aqui uma história em sentidos diversos e até divergentes. Ao exímio pesquisador pertence o raro talento para fazer do fato as tramas; para compor o fato legível pela própria legibilidade das tramas. Do pesquisador atento vem esta tese sobre as tessituras e fímbrias de um cotidiano que já não há, mas nem por isso está preso no passado. Não é apenas sobre o chamado "Ceará Colonial", ou a chamada "religiosidade popular". Vai além, busca o outro. Encontrá-lo, vale lembrar, não é fácil. No encontro, é imprescindível cultivar a disponibilidade para acolher as diferenças irredutíveis e as semelhanças surpreendentes.Francisco Régis Lopes Ramos Professor titular do Departamento de História - UFCDo prefácio.