Em Ontem, Ágota Kristóf constrói um romance de interioridade radical que acompanha a vida de um operário exilado de sua origem, de sua língua e de si mesmo. Preso à repetição do trabalho industrial e a uma existência esvaziada de vínculos, o narrador se sustenta numa espera obsessiva por Lina - figura de sua infância, ao mesmo tempo real e fantasmática, promessa de um sentido que talvez não exista. À medida que o romance fratura o presente de Sandor, emerge uma infância marcada pela miséria e pela guerra, uma fuga criminosa e a fabricação de uma identidade falsa em prol da sobrevivência. Em recusa a qualquer psicologismo conciliador ou redenção narrativa, Kristóf faz de sua escrita seca e implacável, reduzida ao essencial - fruto do exílio linguístico vivido pela autora -, uma força estética que espelha a brutalidade da guerra e a alienação do trabalho moderno. O resultado é um romance sobre a impossibilidade do retorno - ao país de origem, à infância, ao amor idealizado. Uma obra breve e devastadora, que confirma Ágota Kristóf como uma das vozes mais rigorosas e inquietantes da literatura europeia do século XX.