Ao aproximar a crise da República de Weimar das fragilidades das democracias liberais de hoje, Johann Chapoutot adverte contra a repetição de um fenômeno: um "extremo centro" que prefere uma ditadura feroz a perder privilégios. Ao expor a irresponsabilidade da oligarquia que entregou a Alemanha ao nazismo, Chapoutot lembra que tal escolha pode, mais uma vez, abrir o caminho para a extrema direita. A ascensão de Hitler foi um acidente da história ou o resultado de uma escolha deliberada? É a essapergunta incômoda que Johann Chapoutot responde em Os irresponsáveis: quem levou Hitler ao poder? O livro abre com um prólogo em que Franz von Papen, retornado de além-túmulo, comparece em 2019 à sede do partido liberal para advertir uma direita outra vez tentada a pactuar com a extrema direita, na mesma Turíngia onde, poucos meses depois, um liberal se elegeria com os votos da legenda neonazista. A referência não é gratuita; dos Estados Unidos de 2016 e 2024 ao Brasil de 2018, da Argentina de2023 ao avanço do fascismo nas eleições europeias, Chapoutot rastreia os ecos de 1930: austeridade que empobrece a maioria, executivo que governa por decretos, bilionário da mídia investido de missão salvadora, pânico moral com o chamado "bolchevismocultural", ruína da fronteira entre conservadores e fascistas. A história não se repete, é verdade, mas ilumina. Chapoutot tira o foco de Hitler e dos nazistas para direcioná-lo à direita conservadora e liberal-autoritária dos últimos anos da República de Weimar, que lhes abriu as portas. Para esses liberais autoritários e conservadores, Hitler não passava de um amador a ser domesticado, a força popular que faltava a uma direita sem base eleitoral. Partilhando das ideias e do programa nazista,como o apoio incondicional à burguesia, o anticomunismo, o racismo e o imperialismo, os irresponsáveis do título estavam convencidos de que poderiam usar o movimento nazista como tropa de choque na luta de classes, para depois descartá-lo. Os mecanismos políticos e jurídicos dessa erosão democrática, sobretudo entre 1930 e 1933, são reconstruídos por Chapoutot. A manipulação da Constituição transformou o regime em um presidencialismo autoritário capaz de contornar o Parlamento e concentrar poderes excepcionais nas mãos do chefe de Estado, um projeto que substituía o debate democrático por uma austeridade imposta de cima e garantia os interesses da burguesia alemã. O resultado deste extraordinário livro não é a anatomia de um "erro de cálcul
Avaliar produto
Preencha seus dados, avalie e clique no botão Avaliar Produto.