Este livro nasce de uma lacuna clínica. Nas últimas décadas, as altas habilidades/superdotação (AH/SD)passaram a ocupar um espaço crescente no debate público, educacional e na interface clínica emsaúde. Ainda assim, quando o tema entra no campo daPsiquiatria e saúde mental, ele frequentementechega deformado por dois equívocos opostos.De um lado, a idealização: a ideia de que alto potencial cognitivo representa, por si só, vantagem global,maturidade ampliada ou proteção contra sofrimento psíquico. De outro, a redução: a tendência de traduzir toda a complexidade do fenômeno em um número, em geral o quociente de inteligência, comose ele bastasse para explicar a experiência subjetiva, o funcionamento relacional e as dificuldades clínicasdesses indivíduos. Este livro foi escrito contra esses dois simplificadores.Não se trata de um manual diagnóstico. Também não é uma celebração da superdotação. Não pretende transformar diferenças reais em mitologia, nem oferecer uma identidade pronta à qual o leitor devaaderir. Seu propósito é mais rigoroso e, ao mesmo tempo, mais útil: propor uma leitura clínica dasAH/SD capaz de integrar neurociência, psicopatologia, experiência subjetiva e prática terapêutica.