A ação de setores da cúpula do Estado, particularmente das altas hierarquias militares e do Poder Judiciário, tem produzido impactos profundos nos processos políticos dos últimos 10 anos no Brasil. Apesar de se constituir como "coisa pública" e teoricamente ter, por dever de ofício, que se guiar pela bússola da transparência, opacidade e apagamento de memórias têm sido marcas na política recente. O livro Dois ensaios sobre magia política visa entender como esses processos estão interligados, retomando dois casos que abriram um campo de possibilidades para ações manipulatórias por parte desses agentes estatais: os hackeamentos de mensagens a partir da chamada "Vaza Jato" e a contenda sobre o sistema eletrônico de votação. Em comum, ambos os casos envolveram um certo problema de fetichismo cibernético e possibilitaram ações de alto teor de duplicidade e contradição, condizentes com as que a antropologia analisa como próprias de "ações mágicas" e de "eficácia simbólica". Assim, a "magia", baseada também nas noções de ilusão, dissimulação e espetáculo, é vista como método de operação política.Em Dois ensaios sobre magia política, Piero Leirner analisa como, no Brasil dos últimos anos, o Estado abriu portas para ações insurgentes entre alguns de seus próprios setores. Ao invés de pensar este processo pela emergência de uma excepcionalidade, procura-se ver agenciamentos de teores ilusórios e dissimulados ganhando força conforme contradições sistêmicas aumentam entre elites políticas. Isso é pensado em duas partes: a primeira aborda os hackeamentos conhecidos como "Vaza Jato"; a segunda diz respeito aos ataques de Jair Bolsonaro às urnas eletrônicas e sua relação com militares. Em ambos os casos, destaca-se uma mística tecnológica que facilitou a manipulação de informações e o reposicionamento de agentes do "topo". O tratamento desses episódios como uma espécie de "operação mágica", em sentido antropológico, mostra como estão conectados. Finalmente, o livro conclui com um comentário sobre o papel de Bolsonaro nesses processos e o 8 de janeiro de 2023, tratado como "golpe de vista".