Sob tempestade, algo da palavra se descola do grito e se arrisca ao endereçamento. Não como promessa de pacificação, mas como efeito de uma passagem - sempre precária - do isolamento à cena do outro. Este livro nasce dessa passagem. Resultado do encontro do Outrarte realizado em Minas Gerais, entre a Universidade Federal de Minas Gerais e o Museu Inhotim, ele se inscreve no pós-tempestade não como retorno à bonança, mas como abertura: h(a) céu aberto.O sintagma não designa um horizonte estávelnem um espaço comum garantido. Ao contrário, indica a impossibilidade de um céu unívoco, totalizante, e afirma a abertura como condição lógica para a inscrição de singularidades quaisquer. Singularidades não-todas, atravessadas por cesuras, para asquais o laço não se organiza por predicação, identidade ou pertencimento assegurado, mas por encontros contingentes, disparidades e falhas de composição. Aqui, o comum não precede o singular: emerge - quando emerge - do trabalho do laço.A imagem docéu atravessa os textos reunidos neste volume como operador clínico, ético e estético. Do céu freudiano, cuja imagem não se oferece à leitura sem rasgo, ao céu constelado das identificações dispersas; do céu pascaliano, aberto a um conhecimento quese quer fechado, às costas do céu evocadas pelas cosmologias ameríndias; do céu do delírio, da alucinação e da criação ao céu excessivamente esclarecido da ciência moderna. Em todas essas inflexões, o céu não funciona como metáfora pacificada, mas como campo de forças, lugar de inscrição do inconsciente e de seus modos heterogêneos de funcionamento.
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