Poucas vezes vi um retrato materno tão comovente como este que Tsvetáieva pinta de Maria Alexandróvna Meyn. A poeta narra a relação entre as duas trazendo para o primeiro plano aquilo que ela nomeia como 'personagem principal' de sua infância: o piano. 'Monstro petrificado', 'hipopótamo cheio de dentes', 'imenso objeto aquático'... O piano despertava nela, ao mesmo tempo, fascínio e medo, encantamento e pânico, angústia e força - assim como as coisas mais impactantes da nossa infância, que perduram pelo seu caráter ambivalente. E é sobre essa ambivalência que a poeta vai se equilibrando ao longo do texto e nos conduzindo por uma espécie de fio, sempre a um passo de despencar.Marília Garcia, no ensaio que compõe esta edição.