Em "O cântico da terra", Stefano Mancuso relê o poema "Cântico das criaturas", de São Francisco de Assis, reforçando a relação do ser humano com o meio ambiente nos dias de hoje. A intuição profética de Francisco, que, nesse poema, põe o homem no mesmo nível de todas as outras criaturas - rejeitando o conceito de propriedade e pregando a parcimônia do uso dos recursos naturais - é o ponto de partida para o neurocientista vegetal defender uma tese que atravessa toda a sua obra: a vida no mundo depende das plantas.O que é essencial, diz São Francisco, é a energia do sol, o ar, a água, o fogo, a terra, os seres vivos: as plantas; depois, aqueles que perdoam e amam; e, finalmente, a morte, nossa assombrosa irmã a morte corporal, sem a qual o ciclo jamais poderia funcionar. Ao percorrer os elementos da oração, Mancuso encontra uma visão de mundo baseada na interdependência entre os seres, um manifesto ecológico que trata do tempo cíclico e da cooperação e da capacidade de adaptação, que tornam as plantas um dos princípios fundamentais da vida. Elas são capazes de transformar a energia do sol, regular a atmosfera, conservar a fertilidade do solo e criar as condições para a vida de outros seres na Terra.O poema, que atravessou oito séculos como obra fundamental da literatura italiana, mantém sua atualidade ética e política. O texto franciscano torna-se, assim, um guia para compreender nossa responsabilidade diante do planeta e repensar as formas de coexistência entre a humanidade e a natureza.