Aos 53 anos, a psiquiatra Ester Pellizzari deixou consultório, família e certezas em Porto Alegre para uma missão que não estava em nenhum manual: implantar um Centro de Atenção Psicossocial no coração do Amazonas.Em Tefé, cercada pela floresta e pelo rio, ela precisou aprender uma nova língua - e descobriu que o sofrimento brotava em meio ao medo do Curupira espreitando na mata, ao luto pelas crianças que o rio levou, à violência das galeras e à epidemia silenciosa de suicídios que ninguém sabia como enfrentar.Durante dez anos, entre o calor sufocante e o ritmo lento dos barcos, Ester aprendeu que curar exige acolhimento e escuta. Que os saberes indígenas ensinam o que nenhum congresso ensinou. Que a saúde mental se constrói com as mãos da comunidade, não apenas com receituários.Este é o relato visceral de quem partiu para transformar e voltou transformada.