Há poemas que avançam por acumulação; os de Marcelo Rangel preferem retirar. Em Síntese, a palavra parece submetida a uma pressão contínua: fica apenas o necessário - ou aquilo que, depois de tantos cortes, ainda resiste.São poemas breves, muitas vezes construídos por enumerações, interrupções e deslocamentos. Um substantivo chama outro, um verbo altera a direção do poema, uma cena cotidiana desemboca de repente numa questão maior. Sala de aula, domingo, Lapa, Mauá, um cão preto, café, trabalho, WhatsApp: tudo pode servir de matéria. Ao lado disso aparecem Spinoza, Caeiro, Asclépio, romantismo, cogito, utopia, redenção. Pensamento e experiência não ocupam territórios separados. Esbarram um no outro.Essa aproximação dá ao livro sua graçaparticular. Marcelo Rangel não explica conceitos nem procura convertê-los em matéria solene. Prefere pô-los em circulação, misturados à cidade, ao corpo, ao humor, à memória e às pequenas perplexidades da vida comum. Há ironia, mas também espanto; há jogo, mas alguma coisa está sempre em risco.A concisão tampouco significa repouso. As palavras se precipitam, recuam, repetem, giram, quebram o verso. Em certos momentos, o poema parece uma anotação capturada antes que a ideia desapareça; em outros, uma sequência longamente depurada até adquirir a aparência enganosa do improviso.