Como é possível que a figura de Jesus Cristo, que prega o amor universal, a fraternidade e o perdão possa ser eficazmente apropriada por políticos de extrema direita como Trump e Bolsonaro, cujas plataformas se fundam no ódio, no individualismo possessivo e na idolatria ao dinheiro?Uma das chaves para compreender esse fenômeno está na teologia política, que investiga criticamente as relações entre fé e poder. Muito embora tenha sido desconsiderada pelo pensamento liberal, que nela vê um fóssil pré-moderno, a teologia política ressurge agora não apenas enquanto uma radical possibilidade de leitura filosófica dos nossos tempos, mas também como um campo de tensões. De fato, hoje há um confronto - cada vez mais evidente nos EUA e no Brasil - entre aqueles que pretendem usar a religião para justificar a desigualdade, a injustiça e o autoritarismo e outros que, percebendo as possibilidades libertárias que surgem de um cristianismo reinterpretado em favor dos vencidos, exploram os potenciais emancipatórios da fé, negando ao capitalismo o domínio total a que aspira, a exemplo do que teria feito o Cristo ao expulsar os vendilhões do templo.Este livro pretende ser um breve guia nesse complexo universo, explorando as estruturas históricas, teóricas e práticas tanto das versões tradicionais da teologia política quanto daquelas que, declinadas em chave feminista, negra e decolonial, entendem ser possível a convivência entre a política e a religião de maneira a potencializar e a radicalizar a experiência da democracia.