Este livro, falsamente vendido como de Preceitos, é de poemas - em verdade nada líricos, além do que, muito desossados: estão fadados a serem o que são, prisioneiros de uma escolha, a de pensá-los como preceitos, máximas poéticas que, por isso, abolem o lirismo e se assemelham a grafitos. Talvez funcionem como a tentativa de uma saída ao lugar-comum em que se tornou a expressão poética contemporânea, tributária cordata e senil de modelos asfixiantes ou enredada pela fantasia infantil do ego e que, por isso, não encontra saídas possíveis nesse deserto povoado de miragens e olhares idealizados e românticos.Como poemas, podem, como ideia e com ampla liberdade formal, se alinharem na tradição dos dísticos, que remonta aos gregos e romanos,sem a preocupação de rígida métrica como lhes era característico, o que os aproxima da prática existente nas literaturas modernas, em que há liberdade formal, podendo os versos ser rimados ou não, com o mesmo número de sílabas ou não, como observa Massaud Moisés em seu Dicionário de Termos Literários. O mesmo autor caracteriza esse tipo de poemas como breves, de sentido completo, assemelhados aos epitáfios, podendo ser epigramáticos ou satíricos e, sendo de cunho filosófico, tidos como máximas.Ainda que assim o possam ser, têm ojeriza a certo uso moralista e facilitário encontrável nas frases de efeito, ou máximas, por muitos praticadas correntemente e, como eunucos, nada ambicionam, escaldados pela sabedoria benjaminiana de que a experiência humana contemporânea não encontra mais conexão com a narração, a fábula, o provérbio, esvaziados de seu caráter de sabedoria prática. Em última instância, engolidos pelo silêncio, seriam inscrições lapidares no imenso cemitério contemporâneo de ruínas culturais e históricas [.]