O pensamento psicanalítico nutriu-se filosoficamente, em suas origens, da vertente platônico-kantiano-schopenhaueriana, e Freud disso não fez segredo, a despeito das pretensões cientificistas que o acompanharam ao longo da vida. O fenômeno Nietzsche,porém, teve sobre ele um efeito perturbador. Era o Isso gritando alto e insurgindo-se furiosa e sardonicamente contra o método, a história, o humanismo e a razão. Freud sentiu-se de tal forma fascinado e ameaçado por Friedrich Nietzsche que esforçou-se para resistir à tentação de lê-lo. Percebia que ele e Nietzsche afundavam suas mãos no mesmo magma sulfurante e extraíam dali verdades moralmente inadmissíveis para a época, que engendravam um permanente estado de tempestade e tensão. Mas Freud domesticava apolineamente o inconsciente e o Isso submetendo-os ao Eu, aos processos secundários, à voz do intelecto, à lógica da interpretação. Contrariamente a isso, Nietzsche atiçava dionisiacamente as labaredas que subiam das profundezas dos abismos de fogo que o seu pensamento explorava em obstinado frenesi. Freud instituiu a Deutung, com um propósito de compreensão do fenômeno anímico e de ordenamento das descrições e explicações; Nietzsche exercitou a Auslegung, condenando todo saber humano a um perspectivismo insanavelmente refratário aos esforços de esclarecimento e generalização.