O livro "Nem a dor, nem o sofrimento: escrevo para que eu continue sendo refeita" é uma obra que movimenta as águas de nossas vidas. As águas que nos constituem e as que nos sustentam por meio de nossas experiências compartilhadas na diáspora africana. A autora narra como seu corpo vivenciou e criou estratégias de sobrevivência nas movimentações pelos espaços formativos familiar, religioso e educacional. A escola e a igreja funcionam como espaços de uma mesma estrutura: conter e disciplinar. A família, por um lado, oferece apoio material e emocional; por outro, reproduz normas e valores do sistema hegemônico. Por meio do mergulho em seus diários, podemos reconhecer as dores, amores e sonhos que compõem a escrevivência de uma mulher negra. Como é possível resgatar a si mesma, ser quem se é, romper e construir novas possibilidades de existência? A história de uma pessoa re?ete a história de muitas de nós. Trata-se de uma obra fundamental para todas as pessoas interessadas em epistemologias afro-referenciadas, manifestadas como conhecimento encarnado. Em sua escrevivência, a autora demonstra como a escrita e a literatura podem ser um aconchego e um fortalecimento para a promoção da vida, mobilizando um conhecimento que é inseparável da própria existência e do corpo que o carrega.Monique ReisProfessora de Arte no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e membra do NEABI/IFSP e do grupo de pesquisa Educação e Relações Raciais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).