Em "A polícia da memória", Yoko Ogawa conduz o leitor ao mundo das memórias perdidas. Uma ilha é vigiada pela "polícia secreta", que busca e elimina vestígios de lembranças. Na trama, uma escritora tenta manter intactos resquícios de histórias, de algo que possa permanecer. Não é fácil, já que tudo ao redor desaparece - objetos, pertences, espécies e famílias inteiras - e ela não pode contar sequer com a própria memória. O leitor é convidado, instintivamente, a acessar o seu próprio arcabouço de lembranças e percorre uma jornada de recordações que também gostaria de preservar. Algo que tem se tornado familiar na atualidade, e a todos que têm criado um novo mundo, já que o anterior, pré-pandemia, já não mais existe, e que nunca será como antes. Acessar as memórias é acessar, também, o que criamos e o que se mistura ao real. Ler "A polícia da memória" é embarcar no mais profundo do ser. Há uma pergunta que circunda toda a narrativa: se pudesse, o que você preservaria intacto, e não perderia da memória?