Alguns anos após a pandemia, e com um cenário novo e catastrófico deflagrado pela guerra na Ucrânia e pelo genocídio em Gaza, o que se vislumbra sob o nome de "novo normal" revela, na verdade, o agravamento das crises social, econômica, ecológica e política. Ingressamos a era do colapso não só ambiental como também ecológico e sistêmico: recessão econômica, concentração cada vez maior da riqueza, explosão das desigualdades, emergências climáticas e ameaça de extinção em massa, crescimento da extrema direita, além das crises energética e alimentar como consequências da guerra. Estamos atravessando uma policrise [.]. A crise energética, agravada pelas consequências da guerra na Ucrânia, gerou enorme retrocesso na agenda ecossocial, sobretudoquanto à transição energética. [.] enfrentamos um retrocesso da agenda ambiental, uma militarização crescente e "o que pode ser propriamente caracterizado como uma nova Guerra Fria, que divide cada vez mais o sistema mundo em blocos encabeçados pelosEstados Unidos e pela China, com possibilidades - e realidades - de guerra que poderiam nos levar a um holocausto nuclear".Nós, do Sul Global, temos chamado atenção para as assimetrias históricas e o legado colonial que não apenas persistem como estão se aprofundando. Nesse contexto de crise multidimensional, a pressão dos centros capitalistas para extrair recursos naturais na periferia se intensificou, o que fez aumentar a dívida ecológica. Mas não se trata somente da expansão do já conhecido paradigma extrativista no Sul; a novidade hoje é a multiplicação de megaprojetos corporativos e de novas pressões extrativistas em nome da "transição verde": cobalto e lítio para a produção de baterias de alta densidade energética, madeira balsa para turbinas eólicas, minerais para a transição, terras-raras, hidrogênio verde etc. Tudo voltado à exportação, para garantir o processo de descarbonização dos países do Norte, sem considerar que isso significa uma nova fase de expropriações na vida de milhões de mulheres, homens e crianças do Sul. A história se repete: o Sul Global é visto como "zona de sacrifício" e como fonte inesgotável de recursos para os países do Norte, não apenas para os que são carentes dos chamados recursos energéticoscríticos (como os europeus) mas também para os que os possuem (China, Estados Unidos, Rússia). Fica claro que, diante deste novo extrativismo ou colonialismo energético, não podemos mais acatar qualquer proposta de transição.Neste livro, procuramos